A Caixinha d’Ele ao Vento do Oriente

Ao pé do Tejo. Café.

Eles se encontram pela primeira vez.

Nunca tinham se encontrado, apesar de se conhecerem bem. Eles se falam há aproximadamente 14 anos.

K tem 20 anos, é do signo de Capricórnio. F tem 45 anos, Aquariana com ascendente em Sagitário.

 

Nenhum dos dois mora em Lisboa.

K esteve na cidade por 5 dias quando tinha 5 anos.

F viveu na cidade por 7 anos e sempre pensou que esta seria a sua cidade para viver o resto da vida.

Ambos respiraram o ar do Tejo na mesma época, mas eles ainda não se conheciam.

 

K: Então este é o Tejo?

F: Não é lindo?

Respiram o ar molhado que vem dessa casa d’água.

O ar de Lisboa tem um cheiro particular, um beijinho doce, suave, aconchegante.

 

K: Estiveste com ele nos últimos dias?

F: Sim, estive.

K: Como foi?

F: Fomos afetados quase ao mesmo tempo. Eu tive febre, ele seguiu outro caminho. Eu saí da cama, ele ficou.
Ao fim, ele disse: «Eu te amo, vou sempre te amar e vou sempre estar do teu lado.»

K: Lembro disso. Ele sempre afirmava isso com decisão. Ele parecia inabalável com essa frase.

F: Eu nunca percebi o porquê desse mantra.

K: Eu fui perceber mais tarde, quando ele já não podia me explicar.
Naquela época, eu sempre dizia que ele não estava do meu lado – a tela do telemóvel sempre me enganava.

 

K riu.

Mas na sua infância, o seu ar era desafiador, ar de alguém que tinha a lógica a seu favor.

Com a pouca idade, ainda não percebia a maravilha que se chama metáfora, a mágica da substituição de uma palavra por outra, a arte de despertar sentidos adormecidos e escondidos.

K: Acredito que essa frase, repetida durante os 6 anos e meio que a ouvi…
Vale contar o tempo da barriga?
Sim… Durante os 7 anos que a ouvi, ela formou a presença que sinto dele até hoje.

F: Tinha coisas que ele era insistente, era chato inclusive. Ele dizia que tinha «filho em Capricórnio» e isso o fazia continuar a andar, a persistir, prosseguir…

K: E creio que essa frase produz em mim a sensação de ele está aqui comigo até hoje…
Ele devia querer isso. Quando falava, ele tinha a intenção de plantar isso.
Sinto que ele está sempre um pouquinho atrás, sinto sua respiração, um fluxo presente.

 

O vento do Oriente.

À borda do Tejo, no inverno, há neblina.

Ao andar pela passarela no meio das águas, não vemos a costa, só a ponte por onde anda-se.

Uma sensação de céu e nuvens perto da água. Um cinza suave, que acaricia.

Um efeito oceânico num rio que deságua no mar e que evapora nas nuvens e na neblina. Água que entra nos pulmões e que não afoga.

 

K: Lembro da história do peixinho que morava na pedra. Era uma pedra dos Açores, uma pedra grande que ia lá no fundo do oceano. Pedra leve mas firme, uma daquelas vulcânicas toda furada.
Os gases do vulcão ficam presos dentro da lava. Quando arrefece, vira pedra com covas, com bolhas, com furos.

K: O peixinho morava lá. Ele saía para passear pela água infinita.
Encontrava a amiga Tartaruga e dizia «Olá, Tartaruga!».
A Tartaruga respondia: «Olá, Peixinho!».
«Onde vais, Tartaruga?».
«Vou atravessar o oceano…».
E a tartaruga nadava e ficava cada vez mais pequena, mais pequena, mais pequena, mais pequena, pequenina, pequenina, pequenina, e desaparecia.
E depois vinha a alga, no mesmo processo: nada, nada, diminui, encolhe e some.
E depois a conchinha.
Ea baleia, tão grandona que fica pequenina, pequenina, pequenina…

F: Tinha piada: a forma se mantinha mas sempre aparecia um ser inusitado.

K: Estavas com ele quando ele me contava isso, não estavas?

F: Sim, estava… Foi o início do isolamento. Eu adormecia, também, como tu.
Ele tinha paciência para te conduzir, e era suave.
Quando estavas quase a dormir, tu lutavas com o sono e ficavas agitado.
Ele continuava com a história, decidido, com filho em Capricórnio. Tranquilamente e lentamente e sonolentamente.
Quando adormecias, ele ficava acordado a pensar em ti. Algumas vezes ele derramava-se – a distância era quase insuportável para ele.

K: E no dia seguinte, ele brincava de pula comigo.
Eu sempre te convidava para pularmos juntos, mas acabamos por nunca o fazer.

 

Os cafés chegam com o silêncio que contempla a fumaça.

O gosto é amargo, o calor é agradável e aconchegante.

O silêncio continua durante uma chávena e durante o final da fumaça.

K: Sinto falta dele nesses 13 anos…
Obrigado por ficares com ele nos últimos dias…

F: Ele te amava muito!
Ele só veio para cá para poder trazer-te. Esse objetivo o mantinha vivo ao mesmo tempo que o destruía. Esta era a sua razão, o que lhe mantinha atado.
Por isso ele não se despedaçava, mesmo que para ele não fosse fácil não se desamarrar.
Ele queria te trazer aqui porque ele achava este lugar belo.
Ele gostava da palavra bonito: «Este é o lugar mais bonito do meu mundo!», ele dizia.
Ele também dizia: «O meu menino lindo fofo…»

 

K levanta, recoloca máscara.

K pega a pequena caixinha, a caixinha d’ele.

K se dirige ao Tejo, pela ponte, até o meio.

K abre a caixinha e ele sai com o vento.

 

As águas estão em todos os lugares, inclusive nas gotículas do ar.

A água faz ficar perto o que está longe.

Hoje ele já dormirá embalado pelas águas.

 

 

Lisboa, 26/Agosto/2020