Ano Red Hot

Apontamentos sobre o acaso, a contingência e o que pode ecoar.

Hoje, uma surpresa do acaso conduziu-me novamente à Física, às ondas, às atrações e à mágica dos pozinhos.
A seguir o fluxo, retomo um fragmento escrito no final de 2018.

Foi um ano Red Hot.
Como tudo que sempre lá está, escondido, basta alguém observar que a transformação começa.
Isso é um dos processos que acontecem na psicanálise: algum saber que não se sabe é desvelado ou mostra-se e, assim, passa a ser mudança e (mu-)dança.
Alguém aleatoriamente entrou na minha vida – porque na vida, há mais aleatório e acaso do que projetos e planos.
Esse alguém percebeu que estava lá e avisou-me com uma pergunta sem pretensão: Estás a ouvir Red Hot?

Desvelado pelo aleatório, torna-se consciência e o processo começa: transformar, transformar, transformar e proliferar, transbordar (como sugere o corretor).
Desse transformar e transbordar, faz-se laço com um pequeno outro, pequeno ainda.
Ao transbordar e ao transformar-se, contagia-se: o pequeno outro também provoca ondas.
Assim, em ondas, ao redor do processo, um por um é tomado de Red Hot.
E percebe-se novamente o aleatório e incontrolável a operar na vida.

Como pode um resquício de som que estava lá no fundo, por um deslize de palavras, afetar tanta gente?
Como pode uma questão sobre algo incompreensível vindo pelo som afetar muitos outros que estão ao redor?

A vida de cada um não é decidida e construída pelo cada um… Ela é atravessada pelo Outro da linguagem e pelos outros.
Tentando dizer melhor, quanto efetivamente nossa intenção determina o que vivemos?
Tentando vislumbrar melhor, quão pouco nossa intenção efetivamente determina o que se vive…

Uma pequena ação pode ir em ondas.
A sua ação sem pretensão fez ondas, seguidas por outras ações sem pretensão e com prazer, cultivo e afeto.
No início do ano Red Hot era um lugar, uma cena.
No final do ano Red Hot é outro lugar, outra cena.
Houve o transformar, transformar, transformar e proliferar, transbordar (como sugere o corretor).
Do «méchant» faz-se «mes chants».
Ao transbordar e ao transformar-se, contagia-se.
Porque há mais acolhimento do aleatório e do acaso do que planos e votos.

Talvez este fragmento sobre o ano Red Hot ressoe em alguns poucos.
Há coisas que é preciso fazer sozinho, percorrer sozinho, arrebentar-se sozinho e gozar sozinho – não há como compartilhar ou há apenas a possibilidade de partilha “de atravessado”, por pedaços, por fragmentos, indiretamente.

De qualquer maneira, algumas pessoas sentiram a suavidade das ondulações do ano Red Hot, algumas pessoas falaram disso, foram tocadas e (co-)movidas por isso.
E, com o aleatório, nunca saberei o que mais aconteceu e como isso ondulou em outras pessoas e outros lugares.

No ano Red Hot conjugou-se Amor – sem medo desta palavra e das tantas e diversas situações às quais ela se aplica e se aplicou.

Sem votos para 2019.
Mas, se fosse fazer um, seria o voto de acolhimento do aleatório, do acaso e da contingência.

P.S.: DDB, merci!

 

Lisboa, 31/Dez/2018
Graciosa, 10/Out/2020 (revisão)


 

Sugestão de escuta:
Hard to Concentrate – Red Hot Chili Peppers